Obra: O Poeta Pobre (Carl Spitzweg)
Poeta,
onde tu vives? Vivo na transição de um sistema confuso, entre a terceira
nebulosa e o quadrante superior do espelho metafísico da região silenciosa.
Habita em mim um caos e reluz a calmaria, pois nascido em berço esplêndido,
sofrendo agruras, crescendo, na dor do parto do amadurecer, antes fora Maria,
depois Ana, depois... Ora! Tanta nostalgia!
Estou
cansado, cansado do mundo e de mim mesmo. Olhar no espelho é perceber o
estranho que sempre me serviu de abrigo; medos? Tenho-os todos, mas a coragem é
espasmódica, vindo em surtos, como vêm os amores brutos. Quem sou eu, poeta,
pergunto a mim; quem és tu, profeta, que te calas ao nascer da consciência e
nos julga ao prenunciar do fim? Sejamos fé, tão pouco a ira nos seja tão
persistente. Antigamente eu era qualquer um, algum José; hoje nenhum florim,
xelim, ou mesmo valor qualquer! Sou o poeta das duas faces, das mil facetas,
dos tamborins (ou tamboretes?) ao pé do sofá, como criança a comer jujuba antes
mesmo de almoçar. Esse sou eu, em nada sendo. E você, quem é? Um nome, um encargo,
ou vosso título, ou até mesmo o tal gordo, o magro, o irritadinho... Até o
gago!?Quem somos, se nada podemos mudar e ainda sequer descobrimos quem havemos
de ser? Prefiro a poesia da transição, do equilíbrio das profusões. Pretendo
expor Dali a Parnaso sem qualquer dissensão.
Meu
mundo nunca se traduziu em resposta, entretanto nunca busquei formular as
perguntas certas. Meu papel é deixar as cores misturadas, formando desenhos em
aquarelas alheias; sou mesquinho, pequeno e ranzinza, mas não me esqueço de dar
ao imenso verso o meu pequeno mundo, e nesse mundo o ‘eu’ disperso de cada um
que lê, certamente, em meio ao indignar da crítica, reconhece um pouco do
melhor de si em meu imenso mar de sentidos, de céu, de inferno, de ar e areia.
Desse modo podem até me esquecer, mas lembrando de si mesmos e mesmo me
odiando, por verem em mim o reflexo de vosso ser, certamente dói mais em nós o
crescer do que em mim, pessoalmente, a tristeza de ver em minha poesia as verdades
escondidas do seu desprazer. Entretanto é como sempre tem sido: em cada pouco
um pouco mais belo, em cada elo um desatar de lágrimas e medos sem fim. O
sentido poético é antítese, é provar o patético sobre forma adornada, dizendo
do fim por inigualável parábola; mostrando a beleza da alma na forma e a
escuridão essencial que habita o conteúdo; é, por vezes, fazer-se tolo, é, em
outras conclamar a todos sua presença em festa e, num instante mudo, cadenciar
sutilmente a inexistência do bolo. Eis o que há de melhor e pior em nós! Eis o
que há para dizer ao fim do rodapé, sendo o pouco que temos, só para começar.
Hoje
minha pretensão é só não ter pretensão. Hoje só quero viver tudo o que gostaria
de ter vivido ao olhar para trás, quando sutilmente chegar o amanhã!
Plenitude, silêncio e completude!
Raoni
C.Costa
N.I. 4/12/11

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